sábado, 3 de março de 2012




A Arte a Serviço da Filosofia 
Por: Francisco Atualpa Ribeiro Filho

          Chama-se de estética o ramo da filosofia que reflete sobre a possibilidade de conhecimento a partir dos nossos sentidos. É notório que nossos sentidos não são precisos e todo hora podem ser ludibriados. Mas este problema é um dos maiores convites da ciência da Estética – possibilitar a aventura de viver em um mundo de sensações, explorando coisas que estão bem próximas de nós e tentar vivenciá-las como se fosse a primeira vez.
         Nesse sentido, pode-se dizer que a grande tarefa da filosofia é impulsionar o homem a enxergar as coisas que o cercam como se fossem para ele estranhas. Por isso, deve-se observar a vida com olhos de águia, isto é, tendo uma visão panorâmica da realidade, dos fatos, das coisas. Não dando espaço para a conformidade.
            A arte por ser uma atividade exclusiva do ser humano, talvez a única que esteja constantemente tentando resgatar as pessoas da conformidade em uma vida letárgica. Com efeito, o artista ao vislumbrar o material, a forma, a linhagem expõe um enfoque novo. Uma vez que, ele age assim, postula um significado inovador a um objeto óbvio e banal.
            O artista dessa forma, nos ajuda a perceber as coisas no mundo que estavam camufladas, devido nossas lentes estarem embaçadas pelo materialismo e sua companheira a alienação. Nessa perspectiva, a arte seria um meio de dialogar com o mundo.
            Theodor W. Adorno (1903-1969) em sua obra intitulada “Teoria Estética” (1969) elucidou que, “a arte, por amor ao homem, precisa desumanizar-se”. Para responder a um mundo desumano onde a tecnologia impera, o filósofo propõe uma válvula de escape, a saber, uma arte ainda mais técnica, racional e realística, pois só com uma arte autônoma seria capaz de responder no mesmo nível ao homem que se esqueceu de ser, ser humano.
            Um exemplo disso, está presente na obra de Candido Portinari (1903-1962): “Retirantes” de 1944. Essa pintura abriu o leque relacional com outras atividades humanas, com isso, o pintor deixa transparecer na obra de arte seu forte caráter de crítica social.
            Em traços profundos e marcantes, Portinari expressa seus sentimentos diante das circunstâncias frias e desumanas. Num mundo onde o avanço científico poderia proporcionar o fim da desgraça entre as pessoas, o que mais se enxerga é a aguçada banalização do sofrimento e do horror em prol do interesse capitalista, que uma massa minoritária detém. O pintor aclara uma situação de desigualdade vivenciada por muitos brasileiros, que não tiveram a mesma oportunidade de vida.
           A concepção de arte em Adorno perpassa a visão esteticista das correntes artísticas contemporâneas, tornando-se meio de denunciar as mazelas sociais. Por conseguinte, a crítica social e a crítica artística não podem se dissociar quando o assunto é a capacidade de pensar consciente das pessoas. Porém nem tudo pode ser considerado como arte legítima. Atualmente prevalece um tipo de arte que serve aos interesses do capital, apaziguando qualquer perspectiva de reflexão, onde a arte é atrelada ao entretenimento, a comercialização, impossibilitando seu papel original de emancipação do sujeito.
            Assim sendo, a arte só pode exercer uma dimensão social quando está aliada à crítica e à filosofia, para combater o sistema de dominação que usurpa sua autonomia. Contudo, aprender a fazer isso é parte da educação estética do ser humano, e não se resume a reconhecer estilos e épocas; requer ousadia para suspender por um instante à lógica coisificante e navegar no oceano de associações de ideias, impressões e sentimentos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário