terça-feira, 20 de março de 2012

A Concepção de Felicidade em Aristóteles



A Concepção de Felicidade em Aristóteles


Por: Francisco Atualpa Ribeiro Filho

            Ao discutirmos sobre a felicidade, surgem vários questionamentos como: o que é ser feliz? O que faz o homem feliz? Existe um grau pleno de felicidade terrena? Qual o segredo da felicidade? Felicidade é o mesmo que ter bens materiais? Dinheiro traz felicidade? A felicidade pode ser comprada? É nossa vontade que aponta o caminho para a felicidade? Afinal de contas, onde está a felicidade?

          Com isso, o filósofo grego nascido em Estagira, Aristóteles consagrou e esclareceu esse tema no seu livro: “Ética a Nicômaco”, formulando a famosa ética do meio-termo. A ética é, portanto, uma reflexão, um estudo do comportamento, das ações, das escolhas e dos valores humanos.

         Mas no nosso cotidiano ocorre de percebermos que há uma série de modelos de “éticas” diferentes que postulam modos de vida e de ação, por vezes excludentes. Nesse sentido, a sobriedade de nosso filósofo o fez optar por um caminho que condene ambos os extremos, sendo, pois, os causadores dos excessos e dos vícios.

           Nessa perspectiva, o estagirita procurava o meio entre vícios e virtudes, a fim de equilibrar a conduta do homem com o seu desenvolvimento material e espiritual. Assim, o filósofo pontua que, a felicidade é o estado de espírito a que aspira o homem e para isso é necessário tanto bens materiais como espirituais sem exageros. Trata-se do modo de pensar que promove o homem como senhor e mestre dos seus desejos e não escravo destes e, isso só acontece com o exercício habitual do comportamento que se forma desde a infância.
           Podemos refletir ainda acerca do fato de muitas pessoas afirmarem erroneamente que o dinheiro não traz felicidade. Qual o pai ficaria feliz vendo seu filho passando fome, ou até mesmo no dia de natal não ter ao menos o mínimo para comprar um presente? Quem não ficaria feliz tendo uma boa estabilidade, proporcionando a seus filhos saúde, educação e moradia de qualidade, já que é tão penoso pelas vias governamentais? 

          O problema é o excesso, e não o dinheiro! Um exemplo disso está nitidamente visível no Brasil, onde poucos estão “abarrotados” de bens materiais, enquanto muitos não possuem quase nada. Com isso, devemos aclarar que, o grande vilão da história é a incapacidade de divisão que o ser humano desaprende a cada dia, em sua luta voraz e possessiva pelo poder.

           Portanto, Aristóteles foi pertinente ao fomentar que, o “ser feliz” é tudo na vida do homem desde que o mesmo o busque com equilíbrio, ponderando suas ações. Por isso, para escolher e decidir de modo justo, para construir o sentido das nossas vidas, é preciso aprender a pensar e a pensar sobre o que pensamos, para não cairmos no abismo materialista equiparando o Ter com o Ser tendo como lema: “eu sou aquilo que tenho ou aquilo que consumo”.


segunda-feira, 5 de março de 2012


O Mito como Forma de Filosofar
               Por: Francisco Atualpa Ribeiro Filho

             O mito faz parte da história humana desde os primórdios e nunca deixou de estar presente: seja na pré-história, onde as pinturas rupestres tinham um significado mágico, seja para explicar algo aparentemente aporético, ou até mesmo pela simples necessidade humana de criar “ídolos”.
             Desse modo, o mito é um “relato das origens” e que, enquanto tal, tem uma função de instauração: só há mito se o acontecimento fundador não tem lugar na história, mas num tempo antes da história. O mito diz sempre como nasceram as coisas, as instituições, as regras etc.
             Este modo de “esclarecer” a realidade tão misterioso devido, as personagens não serem seres humanos, pois são deuses ou heróis aperfeiçoados e civilizadores. Com isso, dizer um mito é proclamar o que se passou desde a origem. Uma vez revelado, o mito torna-se verdade absoluta.
             Nesse sentido, o mito se institucionaliza e torna-se indubitável: é assim porque dizem que é assim. Podemos afirmar então, que o mesmo embora criado pelo homem torna-se “racionalmente ingênuo”.
              Porém, não devemos conceber o mito apenas como “faz de conta”, que esgota a realidade nele mesmo, tendo em vista que muitos filósofos como Platão, Theodor W. Adorno (mito de Ulisses e as sereias), Leonardo Boff (mito do cuidado) souberam de forma alegórica contextualizar e filosofar com tais narrações, dando assim uma roupagem reflexiva e impactante.
              Dessa maneira, uma das contribuições de Platão é o mito da caverna. Segundo o pensador, a maior parte da humanidade se encontra como prisioneira de uma caverna, permanecendo de costas para a abertura luminosa e de frente para a parede escura do fundo. Devido essa luz que entra na caverna, os prisioneiros contemplam e ficam inebriados com as sombras que formam a realidade. O grande problema é que, as pessoas conformam-se ao ver essas projeções e as tomam como se fosse realidade.
              Mas quando um deles consegue desamarrar-se e ao sair da caverna acostuma-se com a luz, passa a enxergar as coisas, os seres e não suas sombras. A parte mais difícil do mito é convencer os outros moradores da nefasta caverna, que estão conhecendo apenas as sombras da realidade: uma ilusão. Para Platão, essa é a tarefa mais penosa do educador, a tentativa de resgatar das sombras os amigos.
              Mais de 23 séculos nos separam do referido filósofo, no entanto a metáfora continua, a “incomodar” como uma “pedra no sapato”, nos chamando à reflexão. Já que, nos tornamos prisioneiros de nossas próprias cavernas, que são criadas por nós mesmos, a saber: parte dos programas e noticiários de TV, a globalização em demasia, a desordem das redes sociais, a própria internet com seus sites pornográficos, o videogame.
               Assim sendo, quase sempre de maneira inconsciente, habitamos um número cada vez maior de cavernas por nós edificadas, levando-nos a crer que estamos sem saída. Entretanto, filósofos, políticos, professores amiúde sinalizam o caminho para a fuga dessas cavernas escuras. Porém, nós os tachamos de caretas, loucos, medievais. Quem sabe o interior da caverna seja mais aconchegante e quieto!




sábado, 3 de março de 2012




A Arte a Serviço da Filosofia 
Por: Francisco Atualpa Ribeiro Filho

          Chama-se de estética o ramo da filosofia que reflete sobre a possibilidade de conhecimento a partir dos nossos sentidos. É notório que nossos sentidos não são precisos e todo hora podem ser ludibriados. Mas este problema é um dos maiores convites da ciência da Estética – possibilitar a aventura de viver em um mundo de sensações, explorando coisas que estão bem próximas de nós e tentar vivenciá-las como se fosse a primeira vez.
         Nesse sentido, pode-se dizer que a grande tarefa da filosofia é impulsionar o homem a enxergar as coisas que o cercam como se fossem para ele estranhas. Por isso, deve-se observar a vida com olhos de águia, isto é, tendo uma visão panorâmica da realidade, dos fatos, das coisas. Não dando espaço para a conformidade.
            A arte por ser uma atividade exclusiva do ser humano, talvez a única que esteja constantemente tentando resgatar as pessoas da conformidade em uma vida letárgica. Com efeito, o artista ao vislumbrar o material, a forma, a linhagem expõe um enfoque novo. Uma vez que, ele age assim, postula um significado inovador a um objeto óbvio e banal.
            O artista dessa forma, nos ajuda a perceber as coisas no mundo que estavam camufladas, devido nossas lentes estarem embaçadas pelo materialismo e sua companheira a alienação. Nessa perspectiva, a arte seria um meio de dialogar com o mundo.
            Theodor W. Adorno (1903-1969) em sua obra intitulada “Teoria Estética” (1969) elucidou que, “a arte, por amor ao homem, precisa desumanizar-se”. Para responder a um mundo desumano onde a tecnologia impera, o filósofo propõe uma válvula de escape, a saber, uma arte ainda mais técnica, racional e realística, pois só com uma arte autônoma seria capaz de responder no mesmo nível ao homem que se esqueceu de ser, ser humano.
            Um exemplo disso, está presente na obra de Candido Portinari (1903-1962): “Retirantes” de 1944. Essa pintura abriu o leque relacional com outras atividades humanas, com isso, o pintor deixa transparecer na obra de arte seu forte caráter de crítica social.
            Em traços profundos e marcantes, Portinari expressa seus sentimentos diante das circunstâncias frias e desumanas. Num mundo onde o avanço científico poderia proporcionar o fim da desgraça entre as pessoas, o que mais se enxerga é a aguçada banalização do sofrimento e do horror em prol do interesse capitalista, que uma massa minoritária detém. O pintor aclara uma situação de desigualdade vivenciada por muitos brasileiros, que não tiveram a mesma oportunidade de vida.
           A concepção de arte em Adorno perpassa a visão esteticista das correntes artísticas contemporâneas, tornando-se meio de denunciar as mazelas sociais. Por conseguinte, a crítica social e a crítica artística não podem se dissociar quando o assunto é a capacidade de pensar consciente das pessoas. Porém nem tudo pode ser considerado como arte legítima. Atualmente prevalece um tipo de arte que serve aos interesses do capital, apaziguando qualquer perspectiva de reflexão, onde a arte é atrelada ao entretenimento, a comercialização, impossibilitando seu papel original de emancipação do sujeito.
            Assim sendo, a arte só pode exercer uma dimensão social quando está aliada à crítica e à filosofia, para combater o sistema de dominação que usurpa sua autonomia. Contudo, aprender a fazer isso é parte da educação estética do ser humano, e não se resume a reconhecer estilos e épocas; requer ousadia para suspender por um instante à lógica coisificante e navegar no oceano de associações de ideias, impressões e sentimentos.

A conformidade

"A conformidade é a infecção da consciência." Atuórgines